Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

De vez em quando

- "Olhe, eu estive a ouvir a conversa e acho que é excepcional, deve ser um excelente aluno. A forma como defendeu os seus argumentos foi brilhante... Mostra que tem princípios, os meus parabéns!"*

 

Uma das coisas que cedo aprendi foi que não é bom nós nos vitimizarmos. Nunca gostei de o fazer nem gosto que outros o façam, mas existem momentos em que não podemos deixar de olhar para as coisas como elas são, e expor sem medos que estamos a ser tratados sem o valor que merecemos. Durante o meu crescimento senti muito isso, apesar de raramente o demonstrar. Senti que tinha capacidades que não eram valorizadas nem reconhecidas, e que merecia ser tratado de forma diferente.

 

 

Sentia que tinha uma sensibilidade e uma maturidade para discutir certos assuntos algo diferente da maioria dos meus colegas. Senti que me interessava por coisas para as quais não me 'exigiam' que o fizesse. No entanto, independentemente de me exigirem ou não, eu apenas pedia que reconhecessem o meu interesse, o que nem sempre aconteceu.

 

Hoje já ultrapassei mais a fase de me comparar com outros e tento apenas tornar-me uma pessoa melhor e mais consciente. Isso implica ser crítico com o tudo o que me rodeia, característica que já a minha professora primária detectara em mim. Não sei se sou mais ou menos crítico e consciente do que aqueles que me rodeiam, mas sei que sou diferente deles.

 

É por isso que sabe muito bem ouvir coisas destas de vez em quando, ainda que seja mesmo muito de vez em quando. Saber que somos capazes de cativar o interesse e a atenção de uma pessoa que não nos conhece de lado nenhum para no fim recebermos um 'parabéns' é muito compensador e faz-nos esquecer todas as incompreensões por que passamos.  Faz-nos concluir, por exemplo, que vale a pena continuar a questionar o que oiço e não simplesmente aceitá-lo só porque é a professora que o diz, ainda que isso me valha olhares de descrédito da minha colega do lado.

 

* adaptado a partir da minha memória

música: The Fray - Never Say Never
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publicado por david. às 18:55
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Sexta-feira, 5 de Março de 2010

Igual, mas com mau feitio

-Tens noção de que nunca conheci ninguém como tu...?

-Tenho. E provavelmente não irás conhecer muitas mais.

-Pois não.

 

-No outro dia estive a dançar esta música no quarto, de boxers e phones nos ouvidos.

-Não posso. Tu?

-Sim, porquê?

-Ahah.

-Às vezes devem pensar que eu sou um extraterrestre, diferente das outras pessoas...

 

Estas conversas passaram-se entre mim e uma pessoa que me admira. Não me me admira pela positiva nem pela negativa, simplesmente acha-me estranho, diferente do que está habituada. No dia-a-dia tento sempre mostrar uma faceta própria, distinguir-me, transmitir o lado de mim que gostava que as pessoas se lembrassem quando tivessem que me caracterizar. Muitas vezes deixo-me levar, e mais tarde percebo que não consigo fazer passar bem o que sou. Oiço injustamente que sou frio, arrogante, competitivo, convencido. Respondo levianamente que não me importa o que dizem, mas é mentira.

Independentemente disso, e independentemente do que dizem, eu acho-me realmente diferente. Sobretudo na maneira de pensar, já devem saber. No entanto, existem factos que persistem em relembrar-me à força que não sou diferente, sou igual. Quando o sofrimento me afecta tal como afecta toda a gente, quer tenham pensamentos filosóficos ou não, ou quer tenham uma moral que tentem respeitar ou não, eu percebo que sou tão vulnerável a ele como qualquer outra pessoa.

E ultimamente tenho sentido isso mesmo. Como os meus sonhos cresceram, a vida encarregou-se de me faze-los tentar esquecer também, de uma forma subtil, e com um toque de crueldade que só ela sabe dar. Ela, a crueldade, tem vindo de todo o lado, e eu já não estava habituado a ela.

No entanto, como gajo frio que sou, tenho de continuar a ir para as aulas de história mandar bocas à professora de história, como se tudo o resto me fosse indiferente, e tivesse uma vida normal como toda a gente, para que a V. não consiga decifrar nos meus olhos nada além de um gajo diferente dos outros, com mau feitio.

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música: Keane - Bedshaped
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publicado por david. às 20:06
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

E se toda a gente quisesse viver como eu?

Hoje enquanto o autocarro me levava para casa, o escuro da noite não me impediu de concentrar a minha atenção nas vistosas moradias que preenchem a paisagem da viagem. São daquelas moradias grandes, construídas naquela altura em que os portugueses pensavam que eram ricos. À excepção de duas ou três, habitadas por advogados, praticamente todas as outras me pareceram estar vazias. Questionei-me acerca da utilidade de ter casas tão grandes, e acerca do conforto de viver nelas. Depois lá veio a tal pergunta "E se toda a gente no mundo pudesse viver assim? Era possível? O planeta aguentava?". Não aguentaria certamente. E se toda a gente quisesse viver como eu?

No outro dia estava já deitado na cama, a ouvir música pelo mp3, e com um saco de água quente a aquecer-me os pés. Tal como um velho, como alguém me relembrou.

Normalmente deito-me já tarde, e cheio de sono. Mas naquele momento estava ali deitado na cama, sem muita pressa de adormecer, e como tinha que esperar pela mensagem diária a dizer "boa noite, até amanhã", a que eu responderia com algo simpático e com um smile no fim, fiquei livre para pensar em qualquer coisa.

Ao ínicio, e ao mexer os pés, lembrei-me daquela vez em que estava deitado com a minha tia e algo me fez acreditar que os meus pés tinham tocado no fim da cama. Parecia mesmo que as minhas pernas já eram tão compridas como eu desejava.

Pouco depois lembrei-me das vezes em que eu estava deitado na cama com a minha mãe, e sabendo que ela não gostava, insistia em «mergulhar» nos lençóis e explorar tudo o que havia lá em baixo. A minha imaginação levava-me a pensar que estava noutro sítio, e aquela mistura de sensações entre o perigo do escuro e a segurança de ter a minha mãe por perto chegava para me divertir.

Mas agora já não me deito com a minha mãe nem com a minha tia, e estava por minha conta. A minha imaginação podia levar-me onde quisesse, mas tinha que levar sozinho com as consequências.

Decidi não pensar em muitas coisas, apenas recordei etapas da minha própria vida, coisas que já senti, pensei, e vi... Explorei o conforto que estava a sentir dentro daquela cama, e em vez de cobiçar uma vida melhor, apercebi-me da imensidão de pessoas que desejariam estar onde eu estava e ter uma vida como a minha. Afinal, enquanto eu passo o tempo com lamentações, haverá muita gente a querer viver como eu.

música: Jorge Palma - Estrela do mar
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publicado por david. às 21:32
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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Está sempre lá...

-Porquê que tu és assim?

-Não sei, sou diferente...

-Tu não és diferente! Tu queres ser mas não és, és igual a todos os outros!

 

O diálogo de hoje não se relaciona muito com o que vou escrever, mas mesmo assim quis partilhá-lo aqui devido à violência que estas palavras têm em mim. Afecta-me muito mais ser conotado como igual aos outros, do ser visto como diferente. Se calhar este facto prova que a diferença assenta mais em mim como um desejo, do que como uma realidade. 

Não sei se sou igual ou não. Sei que tive um crescimento diferente e que não me sinto, nem quero ser, igual à maioria dos jovens da minha idade. Um sentimento que algumas pessoas pensam ser egocentrismo. Devido a ter crescido sozinho, aprendi a conhecer-me melhor, a fazer perguntas e a gostar de mim próprio. Apenas isso. Perguntas que uns fazem mais, outros fazem menos, e que alguns nem fazem.

Ultimamente as minhas perguntas voltaram-se novamente para aquilo que existe depois da vida, tal como a conhecemos. O meu afastamento da religião, e o facto da morte ter circundado a minha família recentemente estão na base destas dúvidas.

Tal como as crianças ficam a sonhar com um filme de terror, também eu fiquei assustado depois de ter visto uma urna reaberta com o cadáver coberto de larvas, no filme do Sherlock Holmes. Pronto, o cenário não é o mais agradável, mas depois de ultrapassada essa parte vieram as interrogações acerca do melhor destino a dar aos mortos. Seguiram-se as obvias dúvidas acerca daquilo que existirá ou não após a vida. Para algumas pessoas deverá parecer estranho, mas devo também dizer que um dos pensamentos que mais me passa pela cabeça é precisamente imaginar o meu funeral, se fosse hoje.

Após tudo isto, recordo-me do meu dia de aniversário quando um carro não abrandou, comigo no meio da passadeira. Hoje, depois de pensar em acidentes e atentados no metro, caminhava ao longo do passeio e apercebi-me da pouca distância que me separava do autocarro que seguia a grande velocidade mesmo a meu lado, pronto a levar qualquer coisa à frente. Percebi que apesar da morte ter uma data de encontro marcada connosco, está sempre lá, à espera que demos um passo em falso.

Hoje despedi-me da pessoa de quem mais gosto com a sensação de que era a ultima vez que a via. Apetece-me respirar fundo.

 

sinto-me:
música: The Gift - Nice and Sweet
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publicado por david. às 23:15
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